Para vender Angra dos Reis aos ricos, basta uma fotografia: mar verde-esmeralda, iates reluzentes, ilhas paradisíacas e mata preservada. Nenhuma fila no ponto de ônibus, nenhum esgoto escorrendo na vala, nenhuma família vigiando a chuva com medo de a terra descer.
Nós conhecemos o que fica de fora dessa fotografia.
Conhecemos Angra quando o feriado acaba, os barcos de luxo voltam para o continente e a cidade precisa funcionar para quem mora aqui. Conhecemos a segunda-feira: a torneira sem água nos morros, o trânsito travado na Rio-Santos, a escala exaustiva de trabalho e a cancela que nos proíbe de pisar na praia da nossa própria terra.
Vendem o paraíso. Nós pagamos a conta.
Nossa cobrança tem quatro compromissos inegociáveis: praias com acesso livre e cancelas derrubadas; infraestrutura e saneamento nos bairros o ano inteiro; trabalho com salário digno, direitos e descanso; titulação e proteção dos territórios tradicionais caiçaras, quilombolas e indígenas. É o mínimo para viver com dignidade na terra que nossas mãos sustentam. Veja como cobrar e denunciar.
Antes da cancela, já existia uma comunidade.
Antes de qualquer coisa, afirmamos em voz alta: nossa revolta não é contra quem visita nossa cidade com respeito, nem contra o pequeno comerciante, a dona do restaurante, o feirante e o barqueiro artesanal que dependem do movimento popular para sustentar suas famílias. Nosso alvo é o modelo de turismo predatório que cerca a costa, ergue muros armados contra a população, sobrecarrega os serviços públicos e manda os lucros para fora, deixando para nós a carestia e o abandono.
Antes de existir resort, marina ou condomínio fechado, esse litoral já abrigava vida e dignidade. Famílias caiçaras, comunidades quilombolas e o povo indígena Guarani Mbyá construíram aqui modos de existência sustentados pela pesca artesanal, pela roça comunitária e pelo cuidado com a terra e o mar, muito antes de qualquer cartório existir. O paraíso dos enclaves avançou sobre a expulsão da nossa gente.
Durante a Ditadura Militar, sob o pretexto da Doutrina de Segurança Nacional, Angra dos Reis teve sua autonomia suspensa e foi governada por interventores biônicos. Com a abertura da rodovia Rio-Santos (BR-101) e o “Projeto Turis” da Embratur, a orla foi transformada em mercadoria para o veraneio de elites do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Essa expansão não ocorreu de forma pacífica. Conforme documentado pela pesquisa coordenada pela UFRRJ, publicada em 2015, a partir de dados da Fetag-RJ, a Costa Verde concentrou 56 dos 133 conflitos agrários de todo o Estado do Rio de Janeiro entre as décadas de 1970 e 1980. Nas enseadas do Grataú, Frade e Serra D’Água, grileiros e especuladores — articulados com figuras locais como o empresário Henrique do Vale — aplicaram métodos violentos contra os trabalhadores rurais: queima de moradias, destruição de roças e cercas para forçar o abandono das terras.
A resposta comunitária deixou marcos de resistência. Em novembro de 1980, no Bracuí, 51 pessoas — posseiros e quilombolas — uniram-se fisicamente diante dos tratores da Vale Sul, contratada para obras ligadas à Piccola Marina. Como registrou o jornal comunitário independente A Maré, mulheres e homens colocaram seus próprios corpos no caminho do maquinário pesado para impedir o desvio dos mananciais de água potável e defender a passagem que garantia às crianças o caminho da escola. A pesquisa registra que a empresa alegava ter autorização e negava riscos, mas a comunidade precisou barrar as máquinas para defender a água e o caminho escolar.
Lembrar essa luta resgata a raiz da nossa permanência. Décadas depois, diante de empreendimentos que vendem “exclusividade”, a pergunta continua:
Quem precisou perder a terra para que alguém pudesse comprar o privilégio de excluir?
O muro tem dois lados. O trabalho também.
A violência do passado ganhou registro formal no mercado financeiro. No Frade, empreendimentos residenciais de ultra-luxo e vilas hoteleiras sob a marca do Hotel Fasano Angra dos Reis integram o condomínio FRAD.E. A própria JHSF apresenta o Grupo Fasano entre seus negócios. Grupos corporativos captam capitais para comercializar frações do litoral de Angra como produto de alto padrão.
O modelo é desenhado para a autossegregação: hóspedes de alta renda chegam de helicóptero ou iate, navegam em canais privativos e circulam em áreas isoladas da cidade real. Como comprova o estudo de Marcos Paulo Ferreira de Góis, publicado na Geo UERJ em 2020, a urbanização turística produz enclaves: áreas da cidade estruturadas para viver separadas do restante dela, gerando segregação socioespacial e privatização dos espaços públicos.
O muro separa quem compra descanso de quem trabalha para viabilizá-lo. E quando denunciamos essa abissal desigualdade, a resposta pronta dos defensores do modelo se repete: “Mas gera emprego”.
Emprego não é favor. É trabalho entregue em troca de salário.
Nenhuma mansão se limpa sozinha. Nenhuma piscina de borda infinita se mantém sem o esforço de quem a limpa. Nenhum barco sai para navegar sem o marinheiro. Quem cozinha, constrói, pilota, limpa e atende produz a riqueza que estampa anúncios e folhetos corporativos.
O custo humano desse arranjo é pesado. Na pesquisa de Eliane Melara e Lucas Ferreira Andrade, publicada na revista Cidades em 2024, antigas caseiras e trabalhadoras do condomínio Portogalo relatam o cotidiano de superexploração: jornadas que ocupavam praticamente o dia inteiro durante a estadia dos proprietários e um ritmo de exigências que privava do tempo mínimo para fazer refeições ou beber água. Muitas dessas residências passam quase o ano todo fechadas, enquanto a vida de quem as conserva é marcada pela instabilidade e pelo desgaste.
Não aceitamos que a promessa de emprego sirva de salvo-conduto para a precarização e o esgotamento. Quem depende do nosso trabalho precisa responder pelas condições em que ele é realizado.
A temporada passa. A conta fica.
A conta desse modelo predatório estoura diretamente nas costas da população que vive aqui o ano inteiro.
Durante a alta temporada, a superlotação satura as redes municipais básicas. Não se trata de retórica: no Boletim Oficial de 11 de fevereiro de 2025, página 29, a própria Prefeitura de Angra registrou que o movimento do Carnaval sobrecarregou a rede elétrica na Ilha Grande, provocando interrupções no fornecimento de energia e atingindo bombas elevatórias municipais que operam o abastecimento de água tratada. Enquanto a festa corre nos decks privativos, bairros inteiros sofrem com desabastecimento, esgoto sem tratamento nas águas da Baía da Ilha Grande e filas quilométricas na Rio-Santos.
Mas a face mais perversa dessa desigualdade é a segregação geológica.
Enquanto os enclaves corporativos ocupam as planícies drenadas e o pé na areia com seus campos de golfe e atracadouros privativos, a classe trabalhadora foi empurrada para as encostas íngremes da Serra do Mar. Bairros como Monsuaba, Camorim, Morro da Carioca, Sapinhatuba e Belém cresceram sem redes adequadas de macrodrenagem e sem obras estruturais de contenção.
A cada chuva de verão, nós passamos noites em claro temendo o estrondo das pedras e a terra descendo pela encosta. As vidas perdidas por deslizamentos em Angra não são fatalidades da natureza: são o resultado direto de uma cidade que reservou o chão plano e seguro para o luxo e empurrou quem constrói a cidade para a beira do abismo. A segurança da terra plana virou privilégio; o risco de soterramento virou a rotina da periferia.
Nossa vida não pode ser o custo descartável do paraíso dos outros.
O mar é público. Por que precisamos pedir licença?
O cercamento atinge seu ápice na tentativa de confiscar o nosso acesso ao mar.
No levantamento divulgado pela Agência Pública em 2017, 25 das 55 praias mapeadas em Angra tinham o acesso privatizado e outras 8, controlado. A apuração descreve como a exclusão foi sendo imposta acesso por acesso: cancelas eletrônicas sobre ruas públicas, muros estendidos sobre a faixa de maré para barrar a passagem a pé e seguranças armados atuando para constranger e interrogar moradores.
O artigo 20 da Constituição Federal é inequívoco: as praias marítimas são bens públicos de uso comum do povo e de domínio da União. O artigo 10 da Lei Federal 7.661/1988 (Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro) assegura livre e franco acesso a elas e ao mar, em qualquer direção, e proíbe taxativamente qualquer urbanização ou barreira que impeça ou dificulte essa circulação.
Não existe praia particular na lei brasileira. Cancelas e guaritas sobre vias de uso público violam o ordenamento legal e configuram a apropriação indevida do patrimônio coletivo para inflar o valor financeiro de condomínios fechados. Uma portaria privada não tem autoridade sobre o solo público.
O mar é público. Não vamos pedir licença para pisar na nossa terra.
O negócio tem donos. A política precisa responder.
A especulação imobiliária e o cerco do litoral não operam no vácuo: dependem de operadores políticos para facilitar seus interesses no poder público. É indispensável examinar os nomes, os negócios e as alianças de quem exerce ou disputa influência sobre o destino de Angra.
Segundo reportagem da Agência Pública de 9 de setembro de 2026, Renato de Araújo Corrêa (Renato Araújo, do PL), empresário da construção civil apoiado politicamente por Flávio Bolsonaro, é sócio-administrador da Bellavista Portogalo Empreendimentos, projeto voltado à construção de 31 mansões de luxo em Angra dos Reis. O projeto se localiza no Portogalo — condomínio onde o acesso terrestre ao litoral sofre restrições e onde funcionárias relatam rotinas exaustivas para manter residências vazias a maior parte do ano.
O conflito de interesses é explícito: como exigir que o poder público combata guaritas ilegais, fiscalize acessos públicos e garanta a livre circulação se o modelo econômico desses grupos se sustenta na venda de lotes murados e na promessa de exclusividade? A presença de incorporadores de condomínios fechados na gestão e na tomada de decisões submete a orla pública à tutela direta da especulação imobiliária.
Essa aliança tem reflexos diretos em Brasília na PEC 3/2022, conhecida como PEC das Praias. Em tramitação no Senado Federal com parecer favorável do relator Flávio Bolsonaro, a proposta visa transferir terrenos de marinha da União para particulares e entes federativos. Em um município onde dezenas de praias já tiveram seu acesso fechado ou controlado, a transferência de terrenos de marinha ameaça esvaziar o controle público federal e blindar os cercamentos sobre a costa.
O histórico de contratos públicos também exige cobrança rigorosa. Em agosto de 2026, a sede da Bravo Construções, empresa fundada por Renato Araújo e então registrada em nome de sua esposa, foi alvo de mandados de busca e apreensão na Operação Sarasvati, conduzida pela Delegacia Fazendária da Polícia Civil e pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). A investigação apura suspeitas de fraude e direcionamento em contratos de R$ 16 milhões com a Secretaria Estadual de Educação para reformas de escolas públicas.
Conforme apurações jornalísticas e fiscalizações parlamentares, no Colégio Estadual Antonio da Silva, em Nova Iguaçu — escola atingida por alagamentos do Rio Botas —, foram destinados cerca de R$ 800 mil para uma intervenção onde telhas foram retiradas, lavadas e recolocadas, sem solucionar as fragilidades estruturais que prejudicavam os estudantes. A investigação está em curso. Procurado pela Agência Pública, Araújo não respondeu; o governo estadual informou a suspensão do contrato e a ausência de novos repasses às empresas investigadas.
Diante desses fatos, a pergunta da população é direta: quem é alvo de apurações por contratos em reformas escolares terá compromisso com as obras estruturais de drenagem e contenção de encostas que protegem as famílias trabalhadoras nas encostas de Angra?
O abismo social escancara essa divisão: enquanto moradores do Morro da Carioca, Belém, Camorim, Sapinhatuba e Monsuaba enfrentam a torneira seca e passam as tempestades sob o risco de deslizamento, declarações de bens e apurações expõem o patrimônio dos que lucram com os enclaves, com cotas milionárias e jet-skis. Para eles, o mar é lazer exclusivo e mercadoria; para nós, é sobrevivência, memória caiçara e patrimônio coletivo.
Nossa história não termina do lado de fora.
Do Bracuí que enfrentou os tratores em 1980 aos trabalhadores que hoje mantêm condomínios, hotéis e embarcações operando, há uma trajetória de resistência que os anúncios turísticos não registram: a de quem constrói a cidade e precisa lutar para não ser expulso dela.
Não aceitamos um futuro onde nossos filhos só possam acessar os recantos da cidade portando crachá para servir. Exigimos praias livres com passagens desimpedidas, infraestrutura urbana e drenagem nos bairros durante todos os meses do ano, condições dignas de trabalho e proteção integral aos territórios tradicionais: a titulação definitiva do Quilombo Santa Rita do Bracuí, a homologação da terra da Aldeia Guarani Tekoa Sapukai e a garantia da pesca e do modo de vida caiçara.
Nenhum empreendimento vale mais que o direito de uma comunidade existir.
A riqueza produzida em Angra dos Reis precisa ser revertida para as necessidades de quem vive aqui. Nas ruas, nos órgãos de fiscalização e no cotidiano comunitário, nossa cobrança não recuará diante de interesses imobiliários nem de promessas vazias.
Nossa presença nesta terra não depende de crachá nem de autorização de cancela. Nós mantemos esta cidade de pé — e não vamos aceitar uma vida inteira do lado de fora.